A famosa Blitzkrieg ou guerra relâmpago constitui-se na inovadora doutrina de guerra desenvolvida e posta em prática pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, permitindo que estes dominassem quase toda a Europa de forma rápida e com notável eficácia. Mas afinal, em que consistia tal estratégia? Qual a sua verdadeira origem? Por que era tão eficiente?
| Divisões Panzer alemãs invadindo a Polônia em 1939 |
Antecedentes.
Ainda durante o período da Primeira Guerra Mundial, os primeiros tanques de guerra foram desenvolvidos pelo Reino Unido e pela França, sendo efetivamente utilizados pela primeira vez em combate pelos britânicos em setembro de 1916, com os aliados construindo e operando algumas centenas de veículos de combate durante o conflito. Quanto ao uso do recém descoberto avião, este foi inicialmente utilizado para missões de reconhecimento bem como para incipientes ataques e combates aéreos.
Apesar da importante novidade representada pelo emprego de tanques e aviões de combate, seu uso ainda era bastante limitado durante os anos da Primeira Guerra Mundial, sendo a doutrina militar tradicional naquele período ainda bastante centrada principalmente na infantaria, cabendo aos blindados e ao poder aéreo um papel secundário e meramente de apoio ao deslocamento de tropas que via de regra ocorria a pé ou a cavalo.
| Tanque da Primeira Guerra Mundial |
Nos anos seguintes ao final da Primeira Guerra Mundial, especialmente durante os anos 30, ocorreu um notável desenvolvimento tecnológico na construção de aviões e veículos de combate cada vez mais modernos, mais velozes e com maior poder de fogo. Tal desenvolvimento acarretaria profundas discussões quanto ao emprego destas novas armas nos campos de batalha, destacando-se neste contexto os estudos do militar e estrategista britânico John Frederick Charles Fuller, reconhecido por seus escritos a respeito das primeiras teorias acerca da guerra mecanizada.
Fuller era um notório defensor e entusiasta da mecanização do Exército Britânico com a ampla utilização de veículos de combate, escrevendo vários livros sobre o tema, com suas obras sendo estudadas por oficiais dos principais exércitos do mundo, como o alemão, o soviético e o francês. Suas ideias influenciaram jovens oficiais na Europa, inclusive Charles De Gaulle, também um entusiasta da guerra mecanizada, o qual inclusive viria propor ao Alto Comando do Exército francês, nos anos 30, o desenvolvimento de divisões blindadas para assegurar a defesa do território não coberto pela linha Maginot, sendo solenemente ignorado por seus superiores e pelo governo francês.
| J.F.K. Fuller - Militar britânico |
John Fuller, assim como De Gaulle e diversos outros jovens oficiais europeus, acreditavam que as divisões blindadas deveriam ser a base das futuras forças terrestres, sendo independentes e tendo funções ofensivas, contrariando as doutrinas tradicionais ainda em voga e muito populares entre os oficiais mais antigos que predominavam no Alto Comando das principais forças da Europa. Suas ideias apesar de inovadoras não foram adotadas pelo Exército Britânico nem por qualquer outra força terrestre no continente europeu.
A Blitzkrieg alemã.
Por uma ironia do destino, as obras do britânico Fuller, relegadas a um segundo plano na Inglaterra e em outros países, acabariam encontrando eco e influenciando de forma decisiva o jovem oficial alemão Heinz Wilhelm Guderian, o qual segundo historiadores e especialistas militares, teve o mérito de desenvolver e colocar efetivamente em prática os conceitos e ideias desenvolvidos originalmente por Fuller. Contando ainda com o decisivo e entusiasmado apoio de Hitler, Guderian pôde criar e desenvolver a partir daí a revolucionária estratégia conhecida por Blitzkrieg ou guerra-relâmpago, uma doutrina e tática militar inovadora que permitiria a Alemanha vencer e dominar quase toda Europa com notável eficiência.
Curiosamente o termo Blitzkrieg nunca foi utilizado oficialmente pelo Exército alemão (a Wehrmacht), tendo sido popularizado principalmente por jornalistas estrangeiros e posteriormente utilizado pelos nazistas para fins de propaganda.
Conforme já referido a doutrina militar mais tradicional ainda era centrada principalmente no avanço da infantaria, cabendo aos blindados e ao poder aéreo um papel secundário e meramente de apoio ao deslocamento de tropas. Já a Blitzkrieg simplesmente invertia tal lógica, inovando ao basear-se principalmente no papel central dado ao rápido avanço de divisões blindadas motorizadas, contando com intenso apoio aéreo e colocando a infantaria em segundo plano.
Tal estratégia consistia basicamente em ataques maciços e coordenados de forças blindadas móveis (as famosas divisões Panzer) em um ponto concentrado das linhas adversárias. O objetivo era abrir uma brecha na defesa inimiga e avançar rapidamente por ela. Tais ataques eram velozes e efetuados de surpresa evitando que as forças inimigas tivessem tempo de reorganizar sua defesa. Os adversários quando encontrados eram rapidamente cercados, tendo suas comunicações imediatamente interrompidas, impossibilitando a transmissão de ordens. Isolados e sem comando eram facilmente destruídos posteriormente pelas forças de infantaria que ocupavam a retaguarda enquanto as divisões blindadas, mais velozes, seguiam na frente como verdadeiras pontas de lança e continuavam o avanço. As tropas de Hitler ainda faziam largo uso de metanfetaminas, drogas estimulantes que diminuíam a necessidade de sono e de descanso dos soldados, possibilitando um avanço ainda mais rápido e constante dos alemães.
Heinz Guderian ainda inovou na ampla utilização de comunicação radiofônica entre os blindados, bem como na comunicação, também por rádio, entre os blindados e os aviões de combate. Aumentando sobremaneira a eficiência, a troca de informações e a coordenação entre as divisões blindadas e entre estas e os aviões de combate da Luftwaffe.
| Gen. Heinz Guderian - Idealizador da Blitzkrieg alemã |
A Alemanha, em grande parte graças a moderna e inovadora tática da Blitzkrieg conseguiu derrotar com impressionante eficiência e rapidez os exércitos aliados durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Tanto a campanha da Polónia, quanto a da França duraram pouco mais de um mês. Com a derrota francesa em tão curto espaço de tempo sendo considerada por muitos como um dos grandes feitos militares do século XX. Tanto na Polônia quanto na França, imensas colunas de veículos blindados rompiam as linhas adversárias avançando velozmente e em profundidade em direção ao interior do território do inimigo, enquanto a força aérea alemã (a temida Luftwaffe) destruía as linhas de comunicação, as aeronaves inimigas e outros objetivos militares, facilitando ainda mais a invasão terrestre. Os resultados foram avassaladores: a Polônia teve o seu exército aniquilado e perdeu a sua independência; enquanto os ingleses assistiam ao cerco e a humilhante retirada de Dunquerque e a França viu seu território ser invadido e ocupado com relativa facilidade.
As rápidas conquistas alemãs nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial levaram a uma grande euforia entre os alemães, aumentando o desejo de Hitler em invadir a União Soviética. Esse passo seria dado em junho de 1941 no âmbito da Operação Barbarossa. No entanto, a Blitzkrieg alemã começou a mostrar suas limitações já a partir de 1942. A guerra-relâmpago mostrava-se muito eficiente somente em ataques rápidos e realizados em espaços territoriais mais reduzidos no contexto de uma guerra de curta duração, o que definitivamente não seria o caso soviético.
Pós-1945.
Entretanto, apesar do revés na União Soviética, mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial, as táticas inovadoras da Blitzkrieg viriam a ser largamente adotadas pelas principais forças armadas ao redor do planeta. Inclusive em tempos mais recentes vindo a ser empregada com grande sucesso pela maior potência mundial, os Estados Unidos, com o objetivo de alcançar uma rápida vitória sobre as forças de Saddam Hussein na Guerra do Golfo em 1991 e na posterior invasão do Iraque no ano de 2003. Mostrando que muitos conceitos da Blitzkrieg permanecem atuais até os dias de hoje.
| Blindados americanos em ação no Iraque durante a Guerra do Golfo |

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