A Batalha da Inglaterra foi o maior e mais importante combate aéreo da Segunda Guerra Mundial. Travado nos céus do Reino Unido e envolvendo os pilotos da Royal Air Force contra a poderosa força aérea alemã, a temida Luftwaffe (considerada por muitos como simplesmente a melhor, mais experiente e mais eficiente força aérea do mundo no período). Surpreendentemente tal confronto resultou em uma derrota inédita para a Alemanha nazista. Qual a importância desta batalha? Quais as causas do confronto e quais os motivos dessa importante e inesperada vitória inglesa sobre a até então invencível força aérea de Adolf Hitler?
| Batalha aérea nos céus da Inglaterra |
Antecedentes.
Após a rápida rendição da França em 22 de junho de 1940. A Alemanha nazista mantinha praticamente toda a Europa Ocidental sob seu absoluto controle. Com os Estados Unidos ainda mantendo sua neutralidade no conflito e a União Soviética comprometida com um acordo de não-agressão assinado com os alemães em 1939. Neste contexto, não havia ninguém capaz de apoiar o Reino Unido e este encontrava-se lutando praticamente sozinho contra Adolf Hitler e sua até então imbatível máquina de guerra.
Planejando uma vitória completa na Frente Ocidental, o Führer e seu Alto Comando imaginavam que os ingleses, agora praticamente isolados e ainda profundamente abalados com a dramática retirada de Dunquerque, não tardariam a sucumbir no campo de batalha, sendo praticamente obrigados a buscar uma saída negociada para o conflito. No entanto, os britânicos, sob o firme comando do primeiro ministro Winston Churchill, e dispondo da Royal Navy, a maior e mais poderosa marinha de guerra do mundo naquele período, simplesmente negavam-se a capitular frente ao avanço alemão.
Ciente da inegável superioridade naval dos ingleses, Hitler sabia que não estava preparado para um combate nos mares contra os ingleses. Adotando uma estratégia baseada principalmente numa guerra aérea e submarina, buscando com isso isolar completamente a Inglaterra de suas colônias ultramarinas, cortando as linhas de suprimento de matérias-primas e alimentos essenciais ao esforço de guerra britânico.
Por outro lado, a Alemanha, em sua estratégia para derrotar o Reino Unido, dispunha da mais bem treinada Força Aérea do mundo, a Luftwaffe, composta em sua maioria por pilotos muito experientes, testados e aprovados após anos de árduos combates durante a Guerra Civil Espanhola. A moral da Luftwaffe encontrava-se ainda bastante elevada em razão da esmagadora vitória conquistada recentemente nos céus da França.
Em 16 de julho de 1940, o ditador alemão Adolf Hitler, buscando tirar proveito da fragilidade momentânea dos ingleses, ordenou ao seu Alto Comando a elaboração da chamada Operação Leão Marinho. Um ambicioso plano de invasão da Grã-Bretanha utilizando forças anfíbias e paraquedistas. Entretanto, num primeiro momento tal invasão se mostrava simplesmente inviável enquanto a poderosa Marinha Real Britânica controlasse o Canal da Mancha e o Mar do Norte.
Logo, num primeiro momento, antes que um ataque com infantaria pudesse ser realizado com sucesso, era essencial que a Luftwaffe aniquilasse por completo as defesas aéreas britânicas conquistando a supremacia aérea sobre os céus da Inglaterra. Possibilitando a partir daí o apoio necessário para o enfrentamento à Marinha inglesa e o estabelecimento de uma cabeça de ponte necessária para uma invasão segura e eficiente da Grã Bretanha por tropas alemãs.
Hermann Göring, comandante da Luftwaffe, extremamente confiante no seu poderio aéreo que até aquele momento mostrava-se imbatível, prometeu a Hitler acabar com a aviação inglesa em poucos dias. Neste quadro, a partir de bases estabelecidas no recém conquistado litoral da França, da Holanda e da Noruega, 4 mil experientes e bem equipados pilotos da Luftwaffe partiram em cerca de 3600 aeronaves rumo à Inglaterra com o firme objetivo de aniquilar a Royal Air Force cujo número de aviões de combate era inferior a 1000 unidades. O ataque alemão tinha ainda como estratégia destruir a produção inglesa de aeronaves de combate, bem como inutilizar importantes infraestruturas terrestres, minando a capacidade de resistência do inimigo facilitando uma invasão da Grã Bretanha ou ainda obrigar o governo inglês a buscar uma solução negociada para o conflito.
Os Ataques aéreos contra o Reino Unido.
Inicialmente procurando atingir alvos estratégicos, os ataques aéreos da Luftwaffe acabaram evoluindo para um bombardeio indiscriminado das cidades inglesas buscando atingir a população civil. Durante um ataque surpresa realizado no dia 24 de agosto de 1940, algumas aeronaves da Luftwaffe sobrevoaram e bombardearam a cidade de Londres. Em retaliação, de forma surpreendente, aviões britânicos atacaram Berlim na noite seguinte provocando 10 vítimas fatais.
Enfurecido com a ousadia do ataque britânico, Hitler prometeu vingança num discurso realizado em 4 de setembro. Dando ordens para que a Luftwaffe atacasse e arrasasse Londres, acreditando que através de uma campanha contínua de terror aéreo com ataques constantes, causando grande destruição material na capital inglesa além de pesadas baixas na população civil, atingindo desta forma a opinião pública e levando o governo inglês à capitulação.
O ataque sistemático contra a capital britânica, também chamado de blitz começou em 7 de setembro com bombardeios alemães atacando primeiramente o porto da cidade, com ataques aéreos sendo realizados durante 57 noites consecutivas, entre setembro e novembro de 1940. No total, a Região metropolitana de Londres, que em 1940 era a maior concentração urbana da Europa e uma das maiores do mundo, contando com mais de 8 milhões de habitantes sofreu quase 28 mil ataques à bomba entre 7 de outubro de 1940 e 6 de junho de 1941.
O Radar.
A capital inglesa não foi a única cidade do Reino Unido bombardeada pela Luftwaffe. Outros importantes centros militares e industriais também sofreram pesados ataques aéreos ocasionando um elevado número de vítimas. Estima-se que ao final de 1941, mais de 43 000 civis foram vitimados pelos bombardeios, com aproximadamente um milhão de residências totalmente destruídas ou seriamente danificadas apenas na capital Londres. Em 1940, o Reino Unido encontrava-se numa situação desesperadora praticamente a beira da derrota. Entretanto, lentamente, a situação começaria a mudar graças ao emprego de uma recente e decisiva invenção que somente os ingleses possuíam: o radar.
Com os radares, não era mais necessário a realização de longos voos de patrulha e reconhecimento. O uso do radar compensava a inferioridade numérica dos ingleses, proporcionando uma enorme e decisiva vantagem tática para a Royal Air Force, pois detectava as aeronaves invasoras com certa antecedência, permitindo organizar e coordenar de forma muito mais eficiente os ataques dos velozes caças ingleses contra as incursões inimigas.
| Royal Air Force x Luftwaffe |
Os ingleses, apesar da superioridade numérica alemã, procuravam tirar vantagem das dificuldades logísticas encontradas pela Luftwaffe em manter combates aéreos prolongados longe de suas bases de apoio e abastecimento. Apesar de muito modernas e eficientes os caças Messerschimdt da Alemanha apresentavam uma autonomia limitada agravada pela desvantagem de lutarem a centenas de quilômetros de suas bases de origem, o que dificultava seu reabastecimento em comparação com os aviões ingleses. Os britânicos aproveitaram-se do fato de lutarem em casa, o que possibilitava o rápido reabastecimento de suas aeronaves permitindo que estas executassem um maior número de missões de combate quando comparadas com as forças da Luftwaffe.
Os britânicos contavam ainda com a produção em larga escala do famoso caça Spitfire, um moderno e bem equipado avião de combate, mais veloz e com maior capacidade de manobra que os similares produzidos na Alemanha. O Spitfire em pouco tempo se mostraria um sério problema para experientes pilotos alemães.
O Reino Unido resistiria e venceria o avanço alemão graças a liderança política de Churchill, a resistência obstinada da sua população e ao uso de modernas tecnologias como o radar. O país contava ainda com os modernos e velozes caças Spitfire pilotados com bravura e heroísmo por pilotos ingleses e aliados da Royal Air Force causando enormes baixas nos invasores. Somente em 1940, a Luftwaffe perdeu cerca de 1.700 aeronaves, além da perda de muitos pilotos experientes e qualificados.
Desta forma, a Grã Bretanha, frente ao implacável ataque alemão e lutando praticamente sozinha numa luta de vida ou morte contra os nazistas, já no final de 1940, havia frustrado completamente os planos iniciais dos alemães, com Hitler sendo praticamente obrigado a adiar indefinidamente e posteriormente vindo a cancelar a invasão da Inglaterra no âmbito da Operação Leão Marinho.
A vitória da Inglaterra.
O impiedoso ataque aéreo alemão gradativamente perdeu força, sendo definitivamente encerrado em maio de 1941. Ao final de aproximadamente 11 meses de intensos ataques aéreos e bombardeios, a Inglaterra estava arrasada, mas ainda permanecia de pé e lutando. Os planos de Adolf Hitler e do Alto Comando Alemão fracassaram completamente em atingir os objetivos iniciais de: destruir as defesas britânicas, minar o moral do povo britânico facilitando uma possível invasão da Grã-Bretanha. Por outro lado, o Reino Unido teve seu ânimo renovado após impedir uma provável e iminente invasão alemã, mas essa vitória apresentou um custo elevado. Milhares de soldados e civis foram mortos, e várias cidades (especialmente Londres e Liverpool) tiveram suas infraestruturas enormemente danificadas por aproximadamente 58 mil toneladas de bombas despejadas pelos alemães em solo britânico durante o conflito.
Em termos numéricos, a força aérea britânica perdeu pouco mais de 1000 aviões contra cerca de 1900 aeronaves da Luftwaffe. Durante a Batalha da Inglaterra, somente no período entre 10 de julho e 31 de outubro de 1940, o lado britânico contou a perda de 544 aviadores britânicos e aliados abatidos em combate. Com o chanceler Winston Churchill destacando o heroísmo dos pilotos da Royal Air Force em famoso discurso, realizado em 20 de agosto de 1940 no Parlamento declarando a frase que se tornaria célebre:
Em maio de 1941, com o fracasso nos céus da Inglaterra, Hitler redirecionaria sua atenção para o leste da Europa, com os alemães começando a desenvolver planos para atacar e invadir a União Soviética. Tendo início a Operação Barbarossa.

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